15.3.06

Alentejo agro rural
E O
REORDENAMENTO DO ESPAÇO RÚSTICO

1----- Defender-se que as propriedades agrícolas ainda deveriam ser maiores , do que o que são, é revelador de uma grave ignorância ,senão mesmo uma maldade ou , porque não , a auto-defesa dos beneficiários desta clamorosa injustiça fundiária . A nossa mísera situação regional não pode ser atribuível nem a factores naturais nem humanos , mas sim a este anormal tipo de ocupação, por parte de uma oligarquia fundiária , que, para manter uma insultuosa opulência , coarcta impiedosamente o desenvolvimento regional .
Culpados? O estado somente . Isto porque, desde há mais de um século ,a esta parte , nos lançou numa cruel dependência dos donos da terra do que resultou numa grave perda de qualidade e de identidade dos nossos aldeãos .

2---O espaço rural Alentejo , porque desde há mais de um século está bloqueado , é um factor impeditivo do desenvolvimento rural , pouco contribuindo , como deveria e poderia , comparticipando do esforço nacional , para sair da crise Esta situação tem a origem pura e simplesmente numa estranha irracionalidade fundiária que aqui se perpetua estando na razão directa da insignificante produção agrícola em relação à possível ; a vida politica e consequentemente o debate de ideias estão extremadas ; o mau estar rural , do que resulta um injustificado êxodo , dificilmente explicável fora do contexto agro-fundiário .

a)---- A desproporção da dimensão da propriedade agrícola e a inexistência de explorações de média dimensão são questões que têm que ser rapidamente corrigidas sob pena do desenvolvimento agrícola e dos restantes sectores ,por arrastamento , jamais chegar a acontecer sob a nossa jurisdição.
A fórmula fundiária presente no Alentejo , comummente usada na colonização dos povos conquistados ,é absolutamente imprópria de uma nação europeia , inadequada á integração na nova ordem comercial imposta pelas regras da OCM
Quem não conheça , no terreno ,estas disparidades , é tentado a raciocinar assim :---- A superfície do Alentejo é de 30.000Km2 .Dividida por 40.000 agricultores dá uma média 0.75 Km2 ou seja 75 hectares , o que é excelente .Contudo a realidade é bem diferente . Cerca de 2000 sociedades agrícolas , detém uma media superior a mil hectares (algumas com cinco e dez mil ) e a restante área reparte-se por 38.000 pequenos agricultores que fenecem nas suas míseras courelas cuja área pouco vai alem dos dez . Explorações de media dimensão , que deveriam constituir a maioria e sobre as quais assentaria a economia agrária , são praticamente inexistentes. Na prática 80% do Alentejo é pertença de herdeiros , muitos dos quais não percebem nada disto , ou por especulares fundiários que fazem aplicações de capital . Os numeroso grupo de pequenos agricultores, sem área suficiente , procede a um sobre- aproveitamento absolutamente inviável em termos funcionais .

b)---- Esta anormalidade fundiária , também impede a necessária diversidade política já que , tal como está , faculta o aparecimento de uma demasiada presença de ideias colectivistas , impróprias de um mundo rural estável . Sabido que o solar dessas ideias são as cidades , aonde se concentra uma classe de pseudo- intelectuais sonhadores e irrealistas , ou nas periferias por entre uma classe operária sem horizontes , a sua presença , nos campos , indicia a existência de graves constrangimentos
As grandes explorações agrícolas , detidas por sociedades anónimas ,funcionam como kolkoses ao contrario. Já que o proprietário ,sócios e seus apaniguados sonham com um Le Pen e os restantes , criados indiferenciados , do género do quanto pior melhor . Essa experiência, tão bem conhecida de nós , tem dado maus resultados ,tanto no Alentejo como nos países de leste, e resulta ,em ambos os caso , da opressão fundiária .
É que , também aqui ,a atitude dum trabalhador da terra difere da de um operário . È atávico , entre nós , que a terra é pertença da comunidade ,para ser usada por quem a trabalhe . Isto vem do tempo em que a terra era cedida , por aforamento , a quem a trabalhasse sendo-lhe cassado esse direito , logo que o deixasse de fazer Assim, melhor se compreende que ,entre nós , perante uma grande herdade ou qualquer terra mal explorada , o exclamarmos “deveriam tirar-lha “

.c)--- O mundo rural que , por natureza , deveria ser o paradigma da estabilidade , da conservação das sãs formas de viver ; lugar para onde se regresse , em paz , para um aprazível período de sossego proporcionada pela bonomia do meio e até por um certo bucolismo repousante ; lugar aonde a família, não é palavra vã ; de estabilidade , onde os embates sociais , provenientes das cidades , se amortecessem e perdessem eficácia . Não, não é isso que acontece no Alentejo .Bem pelo contrário .O viver nos campos é símbolo de subserviência perante o poder fundiário .Enfim , lugar de onde se tem que debandar . Tal como está ,porque absolutamente injusto , é impróprio para o estabelecimento da indispensável comunidade rural, lacuna gravíssima , que está na origem de todos os nossos problemas inclusivamente a ameaça á nossa soberania .
Detido por sociedades agrícolas ,(mais de doze mil ) por cotas/acções , pode mudar de donos sem que nos apercebemos de tal . Podem , as gentes de determinada aldeia ,acordar com as terras envolventes a serem pertença de alguém das mais estranhas origens (de qualquer lado inclusivamente das montanhas do Afeganistão) e para os fins mais inconfessáveis .
Nós, todos, por meio dos nossos legais representantes , a nível regional ,e sem a interferência de outras regiões , não podemos continuar a ser marginados em relação aos destinos dos solos da nossa região .Nós , os guardiães deste espaço, que os nossos antepassados nos legaram , deveríamos ter meios , não só de avaliação de a quem se atribui a terra, como em relação ás quantidades necessárias para o exercício da actividade agrícola .

3. ---Sendo esta incongruência fundiária a responsável pela falta de produção , pela anomalia política e pelo mal estar rural ,que se espera para não se proceder ás necessárias correcções ?
Depois de bem analisada a questão fundiária regional ; as nossas obrigações para com a UE ; as reacções dos alienígenas que verem escapar-se-lhes o último El Dourado no mundo ; e a nova ordem agro-económica resultante da globalização . em meia dúzia de linhas e , eis ,em síntese , o produto da minha experiência neste domínio :----
------ Cessação imediata da venda e doação de solos rústicos ,a partir de uma certa dimensão (talvez alterar os indivisos) a quem não se enquadre no D.lei Nº186/86 ; definir a propriedade agrícola “tipo “ funcional , sendo a restante área considerada excedentária e, como tal , objecto de um imposto progressivo ; actualizar a lei do arrendamento rural , incorporando-lhe o extinto aforamento , com séculos de excelentes serviços entre nós.------
Só isto . Parece pouco .Mas chega muito bem .
Vistas bem as coisas , o que aqui se defende não é susceptível de controvérsia ,já que não se põe em causa a posse da terra mas tão só o seu uso; todos podem ficar com toda a terra que têm , simplesmente a que for para alem da considerada “ tipo” será objecto de um imposto .Podem haver queixas ao tribunal das comunidades ,tal como fizeram os ingleses em relação aos irlandeses, que esta , quando se trate de direitos das populações rurais ,não interfere ; A sua capacidade de agitação política é insignificante ,já que a generalidade da população vê nesse tipo de explorações ,insultuosamente grandes , a causa do estado depressivo da região . Que aleguem que “foi comprada com o meu dinheiro “!. Que fosse ! A comunidade rural local é que não lha deveria ter concedido em tais quantidades Trata-se tão só de repor a ordem numa questão que dura há cento e setenta anos a qual não deveria ter acontecido -- Francisco Pândega (agricultor) ;
e-mail:-- fjnpandega@hotmail.com ; Blog:-- alentejoagrorural.blogspot.com

26.2.06

Alentejo agrorural –
E O REGRESSO Á TERRA
l
BREVE CARACTERIZAÇÃO
AS COMUNIDADES RURAIS – as vítimas . O Alentejo agrorural , tendo em conta a velocidade com as terras estão transferidas para a posse de estrangeiros ,em menos de uma geração vai escapar-se da nossa influencia político –administrativa .
Deste desfecho catastrófico só de nós mesmos , e de mais ninguém , nos podemos queixar .Justificações ? não há . Só condenações .Já que a situação a que chegamos deve-se somente á nossa inépcia e falta de coragem para irradicar os factores que estão na origem deste desastre

--- Jamais nos podemos queixar do meio já que este é incrivelmente rico .A tal ponto que só a cortiça ( estou a falar da cortiça em bruto tal como cai da arvore ,e sem qualquer valor acrescentado ) aqui produzida , anualmente , daria para viabilizar os sonhos de uma região se dela fosse pertença . Porem , porque submetido á mais feroz rapina, se algum caso se investimento , nos campos , aqui foi feito , a partir dela , escapou a minha atenta observação . --- Nem sequer do homem alentajano , esse denodado trabalhador , simples , frugal e honesto que , desde há mais de um século, trabalha a sua terra ,ao serviço dos que dela se apossaram

Temos muitos defeitos , evidentemente . Mas , ao fim de tantos anos de submissão , não se pode exigir que sejamos melhores nem sequer diferentes Ao fim de tantos anos , perdemos a capacidade de luta e a noção do que está a acontecer ; perdemos a percepção de que as nossas esperanças , longamente acalentadas , estão a ficar perdidas ; perdemos a capacidade de avaliação da força da nossa razão .
Mas os povos , por vezes , surpreendem E , entre nós, por exemplo , basta que claudiquem aos apoios sociais , que nos mantêm em estado de hibernação , para que surjam forças onde parece terem sido extintas .Os estrangeiros têm disso mais experiência do que nós .Se calhar está aí a razão porque a aquisição do Alentejo não está ainda mais avançada .

a)--- A QUESTÃO FUNDIÁRIA --- Que se instalem em empresas comerciais industriais ou outras , estratégicas ou não , derivadas ou destinadas a agricultura , suprindo a nossa incapacidade , na matéria , do mal ao menos È o custo da nossa mediocridade agrícola . Mas entrar pelo nossos património fundiária aí já dói . Isso constitui ,está claramente provado , uma ameaça a nossa soberania Isso condiciona , se não mesmo inviabiliza , a nossa recuperação quando acordarmos ,quiçá tarde e a más horas , para o nossos problemas sócio-económico .

A raiz dos nossos problemas reside na questão fundiria As terras não estão a ser usadas tendo em conta os grandes desígnios regionais . Não estão a contribuir para a superação da crise que atravessamos .Não está a contribuir para :--- a produção de alimentos ,o bem estar social das populações ,o povoamento harmónico do território ,a preservação da soberania , entre outros . Ora estes desideratos não estão a ser conseguidos por parte da generalidade dos grandes proprietários rurais. Destoa abordar-se esta questão . Contudo , tem que ser assumida e tratada . Se olvidada o cerne do problema fica truncado .

Importa reconhecer que a classe de grandes proprietários , insignificantes numericamente , e de valia eleitoral desprezível ,detém , porem , um poder de manobra e uma influencia descomunal .Mal que se ponha em dúvida a sua eficácia ou a legitimidade dos direitos adquiridos , empertigam-se e clamando pelo sagrado direito a terra como se de uma agricultor directo , efectivo e participativo se tratasse Fá-lo com enorme desplanta mesmo até tendo , já no bolso, um contrato promessa de venda a algum espanhol

Nós, os descendentes dos extintos seareiros , subjugados, vilipendiados , expolidas e empobrecidos , despojados do acesso a terra de uma forma ignóbil , sabemos bem que por detrás desse estranho comportamento está subjacente o tradicional habito punitivo contra a indefesa comunidade rural tradicional

b)---- O FASCÍNIO PELOS ESTRANGEIROS --- Há uma questão que se designa por hospitalidade e boa vizinhança que é tradicional entre nós. Mas isso não é extensivo a alienação do nosso território .O dever para com os nossos antepassados e para os nossos descendentes impede-nos de alienar o nosso património espacial . E nisso , nós , a classe rural tradicional , somos particularmente sensíveis dado que , em relação a sua exclusão , somos portadores de amargas experiências

Que em Espanha seja tudo mais barato , mais livre , menos conflituoso , menos intervencionista, lá isso é verdade .Que o espanhol tenha um mais elevado nível de vida ,mais alegria de viver ,mais integração rural ,é certo . Mas isso não são razões para claudicar de inveja .Mas sim , e de acordo com a nossa especificidade regional , para arregaçar as mangas e fazer da nossa região um local aprazível que dê gosto viver nele .Nós somos capazes enquanto tivermos espaço de manobra ou seja terra .

Mas é connosco e não com agricultores estrangeiros Esses ao contrario do que se pretende fazer crer , não são exemplo de melhor integração agrícola mas sim de como se captam subsídios . Senão repare-se :--- O solar das vacas leiteiras ( frísias e holandesas ) é onde abunda a erva durante todo o ano o que não é o caso da nossa região ; os olivais, tendo em conta que na fronteira , uma tonelada de azeitona dá mais de duzentos litros de azeite e aqui , na peneplanície de Évora , dificilmente atinge os cem , pode-se concluir que , por alguma razão , os antigos se limitaram á enxertia dos zambujeiros e não á implantação de grandes olivais ; em relação á vinha , que tradicionalmente está integrada nos sistemas agrícolas em uso , devido á forma de implantação (não estou a falar da surriba ) deixou de existir a tradicional interacção , com os restantes ramos do sistema .
Há aqui muitos fundos comunitários aplicados na instalação que , em termos de verdade regional , poderiam ser poupados ; muita cópia do que se faz no estrangeiro e pouca experiência regional ;pouca articulação com os outros ramos da actividade agrícola como por exemplo o pastoreio de ovelhas entre Setembro e Março ; a falta de estratégia para o pós--quarenta anos que consiste em , antes que a vinha morra , o solo já esteja ocupado por oliveiras , nuns locais , e por montados , noutros
São desvios á vocação da região que nós, em termos de verdade agrícola , não praticaríamos .mas que seduzidos por estrangeirismo não nos atrevemos a reprovar

c)--FALANDO DE SOLUÇOES - A solução possível , neste apertado leque de condicionantes ,seria , se houvesse coragem política para tanto ,do seguinte teor :---- cessação imediata da transmissão da posse (só posse , não uso ) da propriedade rústica .O desenvolvimento da Irlanda , embora isso não se mencione sempre que se exalta o seu milagre económico , foi devido a uma atitude destas .Claro que nós não somos capazes .
Há ,porem , outras medidas intermédias , mais suaves , que não implicam alterações na posse da terra ( mexer na posse seria como faze-lo a um ninho de vespas de onde jamais se sairia) mas tão só o uso da considerada excedentária ,depois de definida a propriedade tipo .Essa parte excedentária ,objecto de taxas fiscais , seria atribuída de acordo com a legislação em vigor (decreto lei 158/89 ). E aí ,sim , seriam repescados os saberes regionais. Mas rapidamente , antes que se consume a nossa extinção dada a autentica razia a que estamos a alvo
E um assunto importante que iremos abordar em próximo escrito
Francisco Pândega (agricultor)
e-mail:-- fjnpandega@hotmail.comBlog:-- alentejoagrorural.blogspot.com

15.1.06

Alentejo agrorural
e a
MÃE REGIÃO
1---- Quando propuseram, ao chefe índio de Seatle ,a compra das suas terras , ele respondeu com irredutível altivez :-- mas a terra é mãe e a mãe não se vende .
Nas minhas deambulações por outros continentes e, nestes, por diversas paragens , na observação da relação homem/terra , e até na participação directa dos seus “mundos rurais “ é assim ,como disse o índio americano ,em todo o lado .Excepto no nosso Alentejo que está sendo objecto de uma excessiva colonização por parte de estrangeiros .
Isto vem a propósito da celeuma em volta da questão da electricidade .
Que outros sectores de actividade , estratégicos ou não , sejam adquiridos por estrangeiros quem sou eu (, um simples servo da gleba ),para me pronunciar a favor ou contra ? Outros o farão , quiçá , com mais propriedade . Porem ,quando se trate da alienação do nosso espaço físico , (a terra ) este chão sagrado que nos foi legado pelas nossos antepassados , lá a isso oponho-me terminantemente com argumentos validos e irrebatíveis
O facto do sector energético estar a ser adquirido pelos espanhóis está a fazer-nos despertar daquilo que parece ser uma longa sonolência Pena é que jamais tenha havido idêntica postura perante o facto de uma considerável fatia do Alentejo ,junto a fronteira da Extremadura , estar a ser incorporada na economia vizinha .Há aqui uma clara inversão de valores que , no mínimo , traduzem uma preocupante decrepitude moral e um perigosíssimo laxismo na avaliação ,preservação e defesa dos nossos interesses básicos .
Quanto a mim , podem perder-se essas empresas que nem tudo fica perdido . Mantenhamos , porem , o nosso espaço regional certos de que , sobre ele e com gente determinada , ergueremos outras . Sem espaço e com gente acomodada espera-nos a subserviência abjecta , a outros poderes ; limitações de acção ; partilha de rendimentos ; extinção desta nossa comunidade rural milenar Em suma entramos para a galeria dos povos que se deixaram vencer e extinguir .Ou seja a geração /vergonha ao fim de um milénio de nacionalidade

2----- A terra não pode ser vendida como se de um objecto descartável se tratasse . Deve ser , sim, detida pelos melhores de entre nós que lhe dêem o devido uso .
Na actual situação, em que se vive numa autêntica paranóia pela captura de investimentos ,a venda do Alentejo está a ser uma fonte receitas .Só possível , porem , devida a esta confrangedora abulia da comunidade rural local .Venda essa que , ,sendo legal ,nem por isso deixa de ser eticamente imoral. Isto só é possível por ter havido previamente o cuidado de tonar inoperacional as suas gentes
Ha razões do passado recente que levam a comunidade rural tradicional a abominar os campos . Foram cento e setenta anos de servidão inqualificável , de perda de identidade , de exclusão e maus tratos .O doce sabor que dimana do facto de ter terra e de nela exercer a actividade digna que lhe está implícita , com orgulho e grandeza de alma , foi-nos esbulhado . A existência de uma forma de estar no mundo rural , com seus diversos equilíbrios , foi apagada . E os campos , que deveriam ser um meio de manter em paz e sossego uma boa percentagem da população ; que deveriam ser como que a almofada que amortecesse os choque sociais gerados nas cidades ; que deveriam ser a fonte aonde fossemos beber identidade e regionalidade , perderam essa função . Daí sermos o que somos :-- uma presa fácil de abutres endinheirados que nos expoliam indecorosamente
Efectivamente a terra ´e mãe que nos alimenta que nos alimenta a mata a sede ; é espaço e refrigérios nossos movimentos ,onde logramos espairecer . Mas há uma condição :-- temos de merece-la e isso passa por preserva-la em nossas mãos , consciente de que ao faze-lo estamos a honrar os nossos antepassados e a passar á geração seguinte o nossos testemunho identitário

2.a)—Em parte alguma do mundo é possível processar-se ,assim pacífica , tal como acontece no Alentejo . Cada povo encontra as fórmulas necessárias e suficientes para obstar a ocupação do seu território
---No Brasil ,depois de comprar legalmente uma propriedade agrícola, pode perfeitamente acontecer ,algum tempo depois , aparecer alguém , acompanhado por um capanga convenientemente armado , reivindicando a sua posse ;
---em África , nós , os que fomos agricultores por lá , sabemos , por amarga experiência , que os constantes vandalismos impedem a permanência na actividade já que a terra é pertença comunitária a nível clânico , sendo objecto de permanentes reivindicações ;
--- o desenvolvimento da Irlanda deve-se á substituição dos latifúndios ingleses por agricultores locais ,circunstancia que foi decisiva mas nunca é mencionada ao analisar-se o seu fulgurante sucesso económico ;
--- na Europa , aonde estamos integrados , enquanto os nossos parceiros estão sistematicamente a comprar o Alentejo ,não há a menor reciprocidade em relação aos nossos emigrantes Não porque não seja legal mas tão só porque é pura e simplesmente impossível .

2.b)— Nós , no Alentejo , com as portas escancaradas de par em par, anuimos ,sem o menor sinal de inconformidade , á sua compra como se estivéssemos em saldo .
O Alentejo deve ser o único lugar do mundo aonde alguém , sem que sequer tenha havido o cuidado prévio de se saber quem é , quais os seu propósitos ou sequer a capacidade de integração na comunidade rural regional , pode comprar uma vasta área agrícola (não estou a falar de quintas ou pequenos espaços de recreio , residência ou espairecimento ) , confinante a uma aldeia ,cerca-la com solidas cercas de rede e arame farpado , acantonando assim as gentes que ficam impedidas de aceder aos locais de tradição. Resta-lhes a ligação das ás estradas que os levam na demanda da emigração , de trabalho para outras paragens Isto acontece em oitenta por cento do Alentejo .Parece incrível mas é verdade
Pelo que atrás se disse conclui-se que é ás populações rurais quem compete defender o seus espaço rural , nas suas múltiplas vertentes Que foi um êrro ,que se está apagar caro , terem-nos compelido a ser bem comportadinhos , obedientes e reverentes , de tal forma que , face a um estado manietado pelos acordos de livre estabelecimento , seríamos nós a indispensável força supletiva ,com legitimidade acrescida, que colmatasse as insuficiências do estado nesta matéria Não é isso que acontece .E isso está a ter um preço muito elevado

2.c)--- Até mesmo , entre nós , a tradição não é de venda de terra . As terras eram conquistadas pelos reis e ordens religiosas , que as mantinham como forma de engrandecimento pessoal .As gentes das aldeias tinham o seu quinhão em courelas que lhe eram cedidas pela forma de aforamento ou enfiteuse e a parte dos baldios comunitários de onde eram retirados sesmos sempre que se fizesse notar a falta de terra .Terra essa que , segundo a tradição , era pertença de quem a trabalhasse Não podia se alienada e era-lhe cassado o foro sempre que não cumprisse as condições da concessão
A extinção dos foros e o esbulho dos baldios ,na ultima metade do século XlX ,foi uma terrível machadada disferida no homem do Alentejo da qual até hoje não se recuperou
A instalação de uma classe de donos de terras que se apossou simultaneamente das terras , dos órgãos administrativos especialmente das abundantes forças da ordem , fizeram o resto

2.d)--- Lembro-me , no após a ultima guerra mundial , gaiato ainda , sentado no rabanejo da charrua , enquanto as bestas faziam uma aguada , comentar , com outros rapazes da minha igualha e olhando para a autentica muralha constituída pela cintura envolvente de grandes herdades , cujos donos eram gente absolutamente estranha , aonde , trabalhávamos até á exaustão., na qualidade de seareiros .Frugais , simples , empobrecidos , a um nível que hoje não se faz a menor ideia , não conseguíamos produzir o suficiente para alimentar a luxuria dos donos das terras .
Conscientes da injustiça que nos vitimava , era comummente aceite , entre nós , que , nem que fosse pela força do tempo , eles não se aguentariam e seriamos nós , os autóctones rurais ,que trabalhávamos nessas terras , na qualidade de seareiros(repito) , os continuadores , mas então libertos de tão inumana suserania. Isto baseado no facto de na vizinha Espanha (que fica a poucos quilómetros da aldeia) depois da guerra civil , uma dúzia de anos antes, terem , os seareiros das herdades , continuado nas mesmas terras ,mais tarde concedidas depois de expurgadas dos factores parasitários Estávamos convencidos que , em relação a nós , mais tarde ou mais cedo aconteceria uma reforma análoga Também a Espanha , muito antes da Irlanda , deve igualmente o seu desenvolvimento a uma política fundiária coerente

2.e)--- .Ao regressar a Portugal , uns anos após o revolução de Abril , constato que o nosso prognostico , de há trinta anos , na atrás citada conferencia em volta da charrua , se havia cumprido .Certos de que a opção pelo colectivismo era um acidente que não podia ter continuidade , entre nós , estava aberto o caminho mais difícil para trazer paz e produtividade e dignidade aos campos alentejanos O destino ,mais uma vez , foi irónico .A seguir a 1986 , fez-se um estranho recuou , para o pior ,se pior possa ser possível , do antes da revolução .
Agora que os fundos comunitários começam a ser aplicados mais parcimoniosamente , o nosso prognostico ,de meio século antes ,parecia que se iria cumprir .Senão quando , mais uma traiçoeira curva da história , duas gerações depois , vemos a transferencia da terra ,passando por sobre as nossas cabeças , e cair no regaço dos bem financiados espanhóis . È preciso ter azar .

3--- É este o Alentejo de hoje Ficaram ,em muitos de nós , lindos sonhos transformados em desilusões .Sonhos tão infantilmente acalentados , em volta de uma charrua , por uns tantos jovens ,imberbes e idealistas , que desconheciam que tinha de enfrentar uma força numericamente insignificante , mas imensamente poderosa
O Alentejo agrícola está definitivamente perdido para nós .Não faz mal ,dirão alguns . Outros , quaisquer que venham ,seja lá de onde for , é impossível que sejam piores do que estes que cá estão Mas isso é uma falsificação do problema .Nós não nascemos para sermos serventuários na nossa terra , mas sim para dete-la e com base nela exercermos ,em pleno ,o direito ao nosso regionalismo
Tal como está , na actual fase de grande mobilidade das gentes e mercadorias ,pode perfeitamente acontecer que vastas parcelas do Alentejo sejam possuídas por alguém ,com sede algures em Espanha , de onde parte administração , os trabalhadores e os factores de produção e para onde vai a produção aqui gerada ; para onde vão de férias, os doentes curarem-se , as mulheres procriar mantendo a nacionalidade ; outros morrer .Parcelas do Alentejo acabarão por ser uma feitoria fazendo parte integrante de um território estrangeiro , com parcelas descontinuas ,
O nosso negro destino , tal como o dos índios de Seatle , está traçado . Simplesmente porque , tal como o seu chefe disse ,também nós não fomos capazes de considerar que a terra é mãe e , como tal, defende-la
A não ser que ,------ - ( já que em nossas veias corre o sangue dos povoadores de 1375 que , por força da lei das Sesmarias , travaram o passo ás sucessivas investidas dos belicosos espanhóis fronteiriços ; dos que , dez anos depois , foram recrutados para Aljubarrota ; dos que , depois de 1640 , desbarataram , as sucessivas invasões que se lhe seguiram ; dos que , nos meados do século XIX , fizeram do Alentejo o celeiro de Portugal ----) a não ser que , como se disse atrás , haja um milagre e esse gesta nos volte a correr nas veias despertando-nos desta letargia .
FRANCISCO PÃNDEGA(agricultor )
e-mail:-- fjnpandega@hotmail.com
Blog:-- alentejoagrorural .blogspot,com

1.1.06

Alentejo agro-rural
E O
PLANO TECNOLÓGICO
1--- Vai ser dinamizado o plano tecnológico sob a coordenação do professor Carlos Zorrinho ,um profundo conhecedor do Alentejo , das suas gentes ,dos seus problemas e respectivas soluções .Tanto quanto se percebe pretende-se ,a partir do referido plano , modernizar o nosso pais . País do qual o Alentejo faz parte integrante e que , indubitavelmente , está a passar uma fase dificílima . Sendo uma região detentora de um enorme potencial agro-silvo-pastoril , é inconcebível que tenha uma produção desprezivelmente baixa ; que as suas gentes ,detentoras do querer e saber agricultar , tenham que debandar por lhe ser negado o acesso á terra ,na sua terra ; enquanto isto , nada faz suster uma exagerada colonização alienígena ,bem financiada , com especial incidência na faixa fronteiriça com a Extremadura .
Constatando-se que , depois de três quadro comunitários de apoio (QCA ), estejamos assim tão fragilizados há uma interrogação que tem que ser feita :---
Como explicar o não estarmos minimamente preparados para a globalização quatro anos depois de Doha? .Ou então interrogarmo-nos acerca da funcionalidade do presente tecido fundiário ,para assumir novo QCA , tendo em conta a ineficácia dos anteriores ?

2--- QUE VENHA O PLANO TECNOLÓGICO e ,com ele , a indispensável morigeração do mundo rural regional . Só peca por tardio .,já que a nossa região se encontra numa fase , de tal forma periclitante , que tanto pode descambar para a saída do nosso controle , como afirma-se ,em toda a sua pujança , fazendo jus ás suas colossais potencialidades agrícolas .Tendo sempre em conta a especificidade regional, única e irrepetível , importa caracterizar a situação ; analisar os efeitos da OMC (organização mundial do comercio ), sobre a nossa região ; e , por fim , tomar as medidas de feição agro-rural conducentes á nossa integração nesse comércio agrícola globalizado

2.a)—Breve caracterização do Alentejo agro-rural Como se sabe , nos últimos vinte anos , tantos quanto a vigência dos três QCA (quadros comunitários de apoio ) , a PAC disponibilizou , para o Alentejo, enormes quantias em subsídios . Se a isso acrescentarmos as verbas , de cerca do dobro, resultante da cortiça , aqui produzida , aproxima-se de uma quantia astronómica na ordem dos dez biliões de euros desde 1985
Trata-se de muito dinheiro Não obstante isso a produção agrícola caiu para níveis desprezivelmente baixos ; as pessoas continuam a debandar da região ; a auto-estima regional está no seu mais baixo nível ; o Alentejo está a ser objecto de uma excessiva colonização ,por parte de endinheirados alienígenas , que põem em causa a nossa soberania
Que se passa , em nós, para que ,em termos agrícolas , sejamos um autêntico desastre ? Deve-se á reduzida existência daquele que seria o pilar base da estabilidade agrícola :--
Explorações agrícolas de média dimensão na possa efectiva de agricultores directos ,
em família e residentes , de livre usufruição , inclusivamente com direitos de sucessão (excepto venda e hipoteca )
.Em vez disso o Alentejo é , em cerca de 80% do seu espaço , de herdeiros sem o querer nem o saber ser agricultor ; de pessoas com outras actividades , especuladores fundiários e maníacos endinheirados , etc..Geralmente , sem exercerem a actividade agrícola de uma forma consistente e adequada ,não raro associam-se , em autenticas centrais de captação de fundos comunitários , adquirindo uma notável especialização nessa matéria

2.b)--- A Europa e a organização comum de mercados ( OCM ),
É sabido que as nações que compõem a UE ,devastadas por sucessivas guerras, têm a lembrança de uma passado de grandes fomes . A experiência ensinou-os (não me refiro a nós que ,nesse domínio , somos de uma inépcia confrangedora ). que não devem descurar a auto-suficiência alimentar Daí a aposta na agricultura , dotando a PAC dos indispensáveis fundos .Com muita tecnologia e exagerada intensificação , esse objectivo foi conseguido. Mas á custo de elevados preços nos alimentos e danos na saúde pública . A BSE , as toxinas cancerígenas , os venenos nas frutas e legumes , os antibióticos na carne , são os resultados da intensificação das culturas e do confinamento dos animais
Enquanto isto os países do terceiro mundo , com largos espaço para serem grandes produtores de alimentos , impossibilitados de os exportar devido á subsidiação da PAC . ameaçam com boicotes aos produtos industriais .Perante isto a Europa vai abandonar a subsidiação directa aos produtos agrícolas e desarmar as pautas aduaneiras
Isto tem enormes vantagens já que o mundo fica mais justo e equilibrado ,já que cada região , em qualquer parte, produz e lança no mercado aquilo para o qual tenha vocação ecológica Daí a razão porque já existe no mercado , durante todo o ano, uma vasta diversidade de produtos agrícolas , de boa qualidade e a preços aceitáveis . Ficam a ganhar os consumidores , alias todos nós
Quem fica a perder são os agricultores já que , sem subsídios , vêm-se na necessidade de concorrer , com outros agricultores , a nível global , em pé de igualdade ,. Daí a necessidade de arrumar a nossa casa agro-rural libertando-a dos factores que a estã a emperrar . de modo a que haja uma salutar luta concorrencial ,vencendo os que produzirem mais e melhor , dando autenticidade ao mercado
E nós ? Qual o nosso papel neste mundo agrícola globalizado ? . Já está estudado :--- Vamos construir o nosso nicho de mercado com base na cortiça , de que somos o maior produtor mundial , maior do que todos os outros juntos ; carne de porco (enchidos e presuntos ) a qual , engordada nos montados, resulta um produto inigualável ; azeite , hoje considerado um alimento muito saudável e exclusivo da bacia do Mediterrâneo ; e horto - frutícolas , vocacionadas para o abastecimento da Europa Central , aonde podemos antecipar a sua própria produção em cerca de dois meses .Só isto e chega bem .

2.c--- A nossa agro-ruralidade e a integração na OCM
Assim , pressionados pela globalização , não podemos postergar a redefinição do modelo agrícola já que o actual está esgotado, porque obsoleto, e absolutamente impróprio para integrar essa nova ordem globalizada
A condição é simples :-- a terra terá que ser detida por agricultores directos e em família , na posse de explorações correctamente dimensionadas .Simples , como se vê .
Aliás foi nesse sentido que sempre foram as directrizes da PAC ao estipular que só devem ser subsidiados agricultores a título principal . Porem , o governo português de 1985 entendeu apoiar indiscriminadamente todos os donos de terra fossem agricultores ou não . O resultado é o que se vê .
Que venha o plano tecnológico na condição de ter sempre presente que há um meio natural especifico e irrepetível que não pode ser contrariado. Forçando-o, resultam inexoravelmente consequências sejam elas de ordem financeira, sejam de agressões á natureza designadamente erosão dos solos , decrepitude dos montados, de ordem climática e ate de desequilíbrios da fauna bravia
. Cuidado, pois . O Alentejo está farto de assistir a grandes “ inovações salvadoras “ todas elas de triste memória , que vão fenecendo ,umas atrás das outras , salvando-se os agricultores tradicionais , depreciativamente considerados" tradicionalistas enquistados" .

Como se sabe em agricultura há duas ordens de intervenções bem distintas :-- Uma que incide sobre o sistema e outra sobre os meios que facilitam a efectivação desse mesmo sistema
----- Por sistema entende-se a forma de exploração tendo em conta a especificidade regional . No que concerne á região Alentejo compreende um determinado calendário agrícola ,de acordo com os ciclos climáticos ; os afolhamentos e rotações de culturas tendo em conta conservação dos solos e a regeneração dos montados ; o maneio e rusticidade de determinadas espécies e raças de animais adaptados ás nossas condições específicas ; a cultura de determinadas espécies e variedades , adequados ás estações do ano e aos nossos hábitos alimentares .
Isto é uma regra inelutável que os tradicionalistas têm mantido e que a globalização vem agora dar toda a razão
----- Por meios , destinados á implementação dos sistemas , de forma a que a actividade seja mais célere e menos penosa , aí , sim , é o campo de intervenção do plano tecnológico .É aí que entram as mais modernas maquinas ,alfaias e ferramentas ; rações e medicamentos para animais ; pesticidas e fertilizantes para as plantas ; infraestruturais (cercas, charcas , currais , alpendres ) com os requintes tecnológicos avançados

É nesta dualidade de critérios que o plano Tecnológico se terá que movimentar
Daí podem resultar os produtos que , no binómio qualidade/ preços , construam o nosso nicho de mercado a partir do qual se reequilibra a balança de pagamentos quer por meio do aumento de exportações quer pelo aumento da produção destinada ao auto-consumo e consequentemente diminuição das importações
E com isso fazer calar os que babosamente defendem transformar o Alentejo num impossível Sillicon Vallery / Califórnia .Isto porque o nosso desígnio , tendo em conta o enorme e ubérrimo espaço que detemos , passa pela desenvolvimento agrícola em volta do qual , a montante e a jusante , desenvolver-se-ão toda uma vasta panóplia de actividades derivadas da , ou para a, agricultura dado ser este o cluster pivot em volta do qual tudo gravita

3--- EM SUMA . Não podemos esconder a verdade da gravidade da nossa ruralidade .Após tanto dinheiro investido mais parece termos sido de um tremenda intempérie .Isso prenuncia que seja o que for que se intente ,sem que antes se reestruture o nosso tecido fundiário , o resultado é sempre um fracasso . Está em causa o Alentejo , espaço ancestral que amamos ,legado pelas gerações que nos antecederam , em relação ao qual temos o dever inalienável de transmitir ás gerações que se seguem
Mas preserva-lo implica que o ponhamos a produzir .Para produzir importa que haja igualdade de oportunidade para todos no sentido de que a terra venha a ser detida , de uma forma efectiva e individual , por parte de quem queira e saiba dar-lhe o devido uso
O nosso mal é não entender que o estatuto da terra pauta-se por diferenças abissais em relação aos outros sectores económicos (comercio ,industria e serviços ) . Nestes , sempre que o empresário seja incompetente e laxista , o mercado encarrega-se da sua inexorável eliminação . Na terra , tal não acontece já que se podem manter, indefinidamente, na sua posse , sucessivas gerações de herdeiros incompetentes , especuladores e oportunistas , absentistas impenitentes. Ora , nestes casos ,ca sua detenção impede o acesso da comunidade rural residente .
Logo , para colmatar e ineficácia do mercado , neste domínio, terão que ser os representantes do mundo rural a assumir essa função . Há que assumir esta verdade bem antiga entre nós e pratica corrente nos nossos parceiro comunitários :--- “ a terra é um espaço comum explorada individualmente por parte de quem o faça de acordo com as regras comummente aceites “
O plano tecnológico tem uma palavra a dizer no mundo rural alentejano . Devera ,por meio dele serem estripados os factores que obstaculizem as condições atrás enunciadas .
Se não se perder de vista as condicionantes edafo-climáticas em que age , será absolutamente seguro o sucesso das novas tecnologias que lhe estão subjacentes.
FRANCISCO PANDEGA

23.10.05

Alentejo agro-rural
e as
PRESIDENCIAIS

1---- Tudo indica que o embate final se trave entre Mário Soares e Cavaco Silva
Ambos foram primeiros ministros e das respectivas prestações , enquanto tal , o eleitor decide-se por um deles
Da governação de Mário Soares sobressai o facto de ter encontrado o país á beira da bancarrota ; de ter exigido sacrifícios á nação e recorrido ao FMI ; de ter posto as contas em ordem e preparado o país , com invulgar sucesso ,para a adesão CEE
De Cavaco ressalta as péssimas negociações da PAC ; o ter, nos primeiro três anos , folgado com o fluxo de fundos comunitários ; de ter criado vícios na sociedade do que resultou , nos últimos sete anos , numa penosa governação ; de ter deixado a nação com um peso desmesurado de funcionários públicos inseridos numa estrutura ineficaz ; com imensos direitos adquiridos , entre os quais sobressaem as promoções automáticas.

2---- Há ,porem , aqui , uma outra questão de primordial importância que os diferencia abissalmente .Porque de decisivos efeitos regionais , deve ser analisada em separado das anteriores Estou a falar da terra . A sua acção perante ela constitui um sólido e incontestável indicador da grandeza de Soares face à mediocridade de Cavaco . Questão essa que foi, e é , de capital importância para o Alentejo e está na razão directa da penosa situação porque passa a nossa região .

Quando em 23 de Junho de 1976 Mário Soares foi indigitado 1º ministro o PCP campeava nos campos alentejanos e as Unidades Colectivas de Produção eram as fontes da conspiração social e alimentação financeira daquele partido
O colectivismo , fórmula agrícola que não funciona em parte alguma do mundo , por absurda e inadequada a vivência do homem , veio substituir o anterior sistema fundiário ,do tipo latifúndio , igualmente injusto e que esteve na razão da miséria nacional e da anulação do perfeito ruralismo ,com séculos de experimentação , apanágio da mundo rural alentejano
O que fez Mário Soares ? promulgou a Lei 77/77 que consistia na devolução , aos anteriores proprietários , de uma área cuja dimensão era , então , considerada suficiente para o normal exercício da actividade agrícola O remanescente , na posse das UCP, ficaria disponível para novos agricultores povoarem a região
Substituído , pouco depois , no governo , possibilitou que Sá Carneiro , sem necessidade de lhe alterar nem uma virgula sequer , instalasse , no curto lapso do seu governo , perto de cinco mil novos agricultores

Em . 08.10.1985 assume Cavaco Silva a chefia do governo . De imediato procedeu a desactivação da referida lei e, por meio de sucessivas alterações , desvirtuou-a completamente .Em vez da instalação de novos agricultores procedeu a devolução da sua quase totalidade aos antigos proprietários Os novos agricultores , já instalados, foram submetidos ao livre arbítrio dos donos da terra , que entretanto se apossaram dela , com rendeiros e tudo .Tem sido um fartar vilagem Quase todos já sossobraram
. Funcionou como se não tivesse havido 25 de Abril ; como se Mário Soares não soubesse o que andava a fazer ;como se Sá Carneiro não fosse um politico de excepcional visão ; como se a experiência do passado não demonstrasse que a solução do a Alentejo não passasse pelo povoamento agrícola , por agricultores directos e efectivos , residentes e em família .
O não ter percebido isso ; o ter alterados as Lei 77/77 de Mário Soares ; e não ter seguido o caminho traçado pelo saudoso politico que foi Sá Carneiro , conduziu a região para o deprimente estado agro-social em que hoje se encontra

3---- Somos nós , eleitores , quem vamos decidir qual destes dois políticos ,cuja visão dos problemas regionais é diametralmente oposta ,entre si , que vamos colocar na presidência :-- um Soares que, numa altura em que era difícil faze-lo , definiu as linhas mestras do futuro agro- rural regional , contrastando com um Cavaco que anulou tudo o que de bom recebeu legando-nos o Alentejo cuja vivência agro-rural , porque de tal forma inumana , nos deveria envergonhar
Convenhamos que entre os dois políticos há uma diferença abissal cujos efeitos importa analisar e ter em conta :--- a cedência de terra , com base na lei de Soares , praticada abundantemente por Sá Carneiro , porque algo semelhante ao aforamento , mantinha o uso da terra , no mesmo agricultor , sem qualquer constrangimento de exercício , já que somente excluía a possibilidade de alienação e hipoteca Esta mantinha-se , indefinidamente na posse de agricultores nacionais/regionais
.Por outro lado, as devoluções de Cavaco foram beneficiar insensíveis e egoístas proprietários que auferiram a quase totalidade dos fundos comunitários para alem de terem beneficiado da sobrevalorização da cortiça cujas receitas superaram , em muito, as dos subsídios da PAC .Para onde foi tanto dinheiro ? clama, sem resposta satisfatória , o comum cidadão ! Mas pior do que isso , já que tem implicações com a nossa soberania ,foi o facto de que vendo que algo vai mudar e esquecendo-se de que á terra pressupõe-se haver um vinculo afectivo que impede a sua venda a quem não esteja em condições de se integrar nos sagrados propósitos regionais , fê-lo , e continua a fazê-lo, impunemente .Isso pode até consubstanciar uma traição, aos nossos antepassados que penaram , lutaram e tombaram por essas chapadas , para no-la legar

4---- Incautos , perante um mundo globalizado , estamos a deitar borda fora a possibilidade de conseguimos a auto-suficiência alimentar a partir da qual nos tranquilizaríamos como povo livre e soberano, condição que temos obrigação de preservar .
Mas mais .Os alimentos que ingerimos podem vir carregados de substancias perigosas para a nossa saúda . Prevê-se , até , vir ser pela via alimentar a forma de enfraquecer os povos Depois da BSE , agora a gripe das aves ; depois da horto- frutícolas poderem ser o veiculo de poderosos venenos se não forem respeitadas as regras da sua aplicação , começa-se a perceber que compete a cada povo organizar-se para proceder ao auto-abastecimento e consequente acompanhamento dos sistemas agrícolas produtivos .Isto para alem da constituição de uma indispensável reserva estratégica alimentar São questão outrora defendidos ,já que era delas que dependia a sobrevivência dos povos , e que terão que ser repescados hoje , dados os perigos com a que a questão alimentar se confronta . Não sei se o Soares , de então , teria previsto estas questões . O que é certo é que elas iam no sentido das necessidades actuais . Agora supúnhamos que Sá Carneiro não tinha morrido ou que quem o substituiu fosse alguém de maior visão em relação ás questões do Alentejo .Com espaço e gente capaz poderíamos ser uma região prospera e onde merecesse a pena viver .Não foi isso que aconteceu e as causas tem que ser denunciadas
Daí a inevitável comparação entre as duas personagens :--- um Soares que preservou o nosso espaço contrastando com um Cavaco que promoveu a sua depredação
Francisco Pândega .(agricultor )
Blog---alentejoagrorural.blogspot.com
e-mail---- www.fjnpandega@hotmail.com

22.8.05

Alentejo agrorural

E OS INCÊNDIOS
1---- O PAÍS ESTÁ A ARDER .Há perdas de vidas e valores ; destruições ambientais ; mobilizam –se as pessoas ; gastam-se fortunas .O drama ir-se-á repetindo , ano após ano , enquanto houver vegetação e não forem tomadas medidas preventivas eficazes .
Eficácia na prevenção significa encarar o problema de uma forma regionalizada .Isto porque ,tanto quanto se percebe , no norte , a propagação faz-se através das copas das arvores e o combate está dificultado devido á orografia do terreno
No Alentejo esse tipo de dificuldades são inexistentes .Entre nós , os incêndios deixam de constituir problema desde que o espaço rural esteja devidamente agricultado e harmonicamente povoado
Agricultado significa a repescagem dos sistemas tradicionais , corrigidos á luz dos recentes conceitos de globalização .Isso implica o uso dos modernos equipamentos agrícolas e restantes factores de produção resultantes das tecnologias hodiernas .
Se reformas há a fazer elas prendem-se com a proibição do plantio da florestas exóticas , principalmente eucaliptos ; com a ocupação racional do espaço alentejano ; e com aquilo a que os marginais do sistema entendem ser uma barbaridade que é “ mobilizar periodicamente todo o solo” . Repito . No Alentejo só deixa de haver incêndios , só se manterá do que resta dos montados e se conservara esta impar paisagem , desde que arado, todo , de lés a lés , com uma periodicidade que não vá para alem dos sete anos .Isto não tem qualquer originalidade .É a nossa pratica corrente no exercício da actividade Sabe-o ,melhor do que eu , qualquer pessoas de um povoado rural
È assim o Alentejo autêntico . Deixa de o ser se apossado por alienígenas


2---- CARACTERIZANDO A FLORESTA alentejana pode-se concluir que , exceptuando algumas faldas de transição e linhas de agua , sendo resultante de um microclima muito específico , da área mediterrânica , é formada por quatro arvores de grande porte :- sobreiros , azinheiras, carapeteiros ( uma pomóidea ) e zambujeiros ( uma oliva ) .Sob o coberto dessas arvores desenvolve-se um substrato , ou camada intermédia, formada por arbustivas :- estevas , sargaços, rosmaninhos , pioneiras e tojos Por fim e num plano inferior , um terceiro tipo de vegetação :--os musgos
Posto isto e numa óptica de protecção contra incêndios há duas situações distintas : Uma , altamente propícia á deflagração de incêndios que é deixar-se de cultivar as terras votando-as ao estado primitivo ou seja á regeneração dos matagais .E outra , a que afasta o perigo de grandes incêndios ,que é a manutenção da terras submetidas ao normal cultivo e pastoreio o que ,entre nós se designa por sistema agro-silvo-pastoril

. . 2.a)---- O Alentejo dos matagais é o estádio normal, para que tende, se votado ao abandono como é previsto que venha a acontecer a breve prazo Para a analise do risco de incêndios ,importa analisar as sucessivas fazes , que se vão sucedendo na terra /floresta alentejana a partir da ultima vez que haja sido mobilizada .Vai-se progressivamente auto-degradando até que , ao fim de vinte anos de abandono , (variável de acordo com o tipo de solo e a intensificação a haja sido submetida ) , atingir o designado clímax .
Nos sete anos seguintes , após a última mobilização , o meio (terra/ floresta ) responde sucessivamente nas seguintes fases :---
---A primeira fase , com uma duração de sete anos , a terra auto-reveste-se por uma cobertura herbácea (pastagem )
---A fase seguinte de sete a catorze anos, a pastagem vai progressivamente cedendo lugar ao aparecimento de arbustivas ; Desaparecem as ervas , o montado /floresta inicia sinais de decrepitude .A concorrência movida pela arbustivas e a falta de mobilização do solo conduzem a fase designada por clímax A degradação do meio ; a agressividade da vegetação ; o chão coberto de folhagem ressequida ; tudo é resinoso e altamente inflamável .É o Alentejo votado ao abandono .É o retorno ao Alentejo dos fogos medonhos e monumentais ,que ainda são recordados pelas gentes mais velhas

I--- Porquê a periodicidade de sete anos ? Interrogar-se-ão aqueles que tenham , em relação a esta matéria , algum interesse . Sete anos é o período em que ,findo o qual , uma terra , sem mobilização /arejamento , cessa a actividade físico química .Como se compreende , esta , tal como todo e qualquer elemento vivo , encontra-se em estado de permanente transformação biológica .Diz a experiência que cessa essa actividade e entra em regressão , ao fim desse período , por falta de arejamento devido á compactação
Esta periodicidade de sete anos , resultante da experiência secular das classes rurais , volta a ter aplicação já que com base nelas que são viáveis as novas formulas de agricultura ecológica que têm por base a limitação do emprego de fertilizantes e pesticidas
Como se sabe , sete anos de pousio é o tempo necessário e suficiente para que a terra readquira o fundo de fertilidade ,se liberte das pastagens , que aqui se denominam ervas daninhas , dos insectos , fungos , viroses , bolores , podridões, etc, que se extinguem , nesse período de sete anos , por falta de hospedeiro .Sem essa auto-depuração do solo implicaria a aplicação de fertilizantes e pesticidas , cujas consequências são por demais conhecidas

II--- Mas o que o é o clímax da floresta alentejana ? Interrogar-se-á quem não esteja muito calhado com este tipo de conhecimentos . Ao contrario dos bosques do norte , em que um conjunto de plantas coexistem entre si . no Alentejo não .Na medida em que vai caminhando para clímax desenvolve-se uma feroz concorrência entre a vegetação de cuja peleja sai vencedora a planta mais primaria e menos útil :--o musgos
Sendo vegetais parasitas primários ,os musgos ,lismos ,líquenes ,algas ,e outros que se confundem entre si , instalam-se nas arvores sugando-as e debilitando-as ; cobre os despojos vegetais, que jazem sobre o solo, transformando-os em pó ; tapa o solo e as rochas com carapaças ,compactando-o e asfixiando-o impedindo que se realize a penetração do ar e consequentemente que desenvolvam as reacções físicas e químicas do solo ; formam um manto fofo ,das mais variegadas cores ,mais parecendo estopa altamente inflamável .As ervas desaparecem ,os arbustos definham e as arvores rareiam e fenecem
O musgo parece , pois , ser o elemento básico do reino vegetal regional .A partir de então , em termos de incêndios o Alentejo está transformado num barril de pólvora
Era assim o Alentejo anterior ao século XX .Volta a sê-lo na medida em que deixar de ser arado ou for apossado por quem não saiba ou queira dar-lhe o devido uso .

É nesses estádio ,porque altamente combustível ,que os fogos assumem a sua antiga e medonha dimensão .
Dantes os fogos eram ateados por cabreiros, que pastavam rebanhos de cabras , os animais que melhor transitavam naquelas condições .Isto para possibilitar o reaparecimento de “renovo “ do qual as cabras se alimentavam
Outras vezes os fogos eram ateados por foragidos ,não raro pessoas de bem fugidas á justiça por motivos politico/religiosos Para se defenderem reagrupavam-se e recorriam ao fogo.
. O Alentejo é ,pois , no estado bravio , altamente combustível .O fogo produzido por musgos e tojos e outros materiais , desenvolvem um tal calor que tudo mata e reduz a cinzas .Como forma de expressar a violência do seu calor havia, entre nós , a convicção de que até fazia estalar as pedras

III—Os açambarcadores de terras , desconhecendo este comportamento regressivo do meio , porque pouco habitual noutras paragens , ficavam surpreendidos perante a necessidade de mobilizar os solos .Pensando que bastaria adquirir terras para , sem mais custos recolher os frutos pendentes , designadamente a cortiça pela qual têm especial apetência , acabavam por concluir que havia custos de manutenção . . Depressa se aperceberam que detendo a terra obtinha a dependência das gentes das aldeias Pô-las a proceder ás desmatações e mobilizações ,do sub coberto , tem sido uma pratica comum desde há mais de um século , acintosamente regulamentada por leis de Cavaco Silva .A terra é mobilizada e , com isso , afastado perigo de incêndios recebendo ainda uma grande participação monetária .P ara alem da totalidade das receitas, com origem nos montados , das quais sobressai as da cortiça que são muitos milhões anuais .
Assim melhor se compreende algum o fausto e luxúria , aparentemente inexplicáveis , que por aí há .Assim melhor se compreende a pobreza dependência e falta de dinamismo nas aldeias rurais ,que tolhe a nossa regionalidade
Esgotado o recurso a esta a infame exploração do homem rural alentejano , surge, em sua substituição, dinheiro comunitário a rodos ; ao que parece está a haver mais parcimónia na sua atribuição do que resulta uma escapadela para teses turísticas e venda aos espanhóis .Não obstante esse reprovável comportamento , se questionados , empertigam-se invocando o sagrado direito á terra
2.b)--- A organização do espaço rural é a condição essencial para obstar aos incêndios . Para dar alguma coerência á descrição torna-se necessário descer a um patamar descritivo um tanto enfadonho . Vamos, sintetizar . Em circunstancias normais de aproveitamento e povoamento , os campos alentejanos constituem um mosaico muito complexo formado por retalhos de alqueives , terras de seara e pousios Isto porque a nossa técnica de exploração impõe que cada propriedade agrícola seja parcelada em folhas e em cada uma delas se proceda a rotação de culturas
Acontece que , quer o número de folhas quer o aproveitamento de cada uma , é variável de acordo com a capacidade de uso do solo
Conhecendo a percentagem , do valor agrícola de cada parcela , nós podemos calcular, com relativa exactidão , qual a ocupação do Alentejo em alqueives , searas e pousios de diversos anos
No caso presente , porque estamos a tratar de incêndios, só nos interessa a área de alqueives já que sobre eles o fogo não passa

O espaço, alentejano , nos seus 30.000 km2 , para análise de incêndios, divide-se em duas partes :-- cerca de 1/10 de vinhas ,olivais, regadios , área social e outras , em que a questão dos incêndios não se põe .Os restantes 27.000km2 que são as terras agrícolas extensivas, esses serão objecto de tratos agrícolas visando também a prevenção dos incêndios .
. Assim desses 27.000 Km2 , 10% são de terras boas (tipo A) ; 20% de terras medias (tipo B+C) : e os restantes 70% de terras más (tipo D+E).As terras boas , porque intensivamente cultivadas ,geralmente são ser divididas em três folhas uma da quais de alqueive ; ,as de media qualidade em cinco folhas; e as má em sete , isso significa que estão na situação de alqueive respectivamente , 1/3 de 10% ;1/5 de 20% ; e 1/7 de 70% Ou seja :-- dos 27.000 km2 de área agro-silvo-pastoril ,cerca de 5.000 mil Km2 estão alqueivados e absolutamente defendidas do fogo . Pode-se assim concluir , se a região for convenientemente explorada, essa enorme área constitui um eficaz aceiro que intercepta qualquer fogo que se haja instalado
Face ao exposto podemos afirmar que , se o Alentejo andar bem cultivado ,porque pontilhado de áreas aonde o fogo não caminha , obsta que progrediam .Nessas condições torna-se numa região imune aos incêndios

c)--- O combate aos incêndios Mais do que combate a nossa experiência é preventiva . Prevenção essa resultante do conhecimento do seu comportamento ,daí os aceiros que circundam as folhas e os caminhos .Em condições normais só há incêndios em Julho Agosto e princípios de Setembro
. Recordando , aquando das ceifas em Junho , fazíamos a rancho e consequentemente lume , no meio do restolho sem que vez alguma acontecessem casos de fugas de fogo .Ainda hoje ceifa-se e enfarda-se em Junho a periferia das searas. Depois é que se aceira indo bem a tempo de precaver dos fogos .
Mas perigo de incêndios , quer no pousio quer nos restolhos , fica muito reduzido se , na exploração , houver gado a pastar . O gado come e acama o restolho de tal ordem que um incêndio , a activar-se , fica praticamente inofensivo
Fogos nesta condições não causam estragos podendo até andar sob os chaparros não os prejudicando para alem de chamuscar a rama .Contudo essa queimada , pratica habitual até há pouco , é hoje proibida , e bem, já que mata as jovens plantinhas dispersas pelo terra, assim como as das estremas, valados e arrifes
Alem disso há o habito de , nas explorações , no verão , tempo em que os tractores têm pouco trabalho, estarem estacionados sempre com uma grade acoplada .Mal surja um incêndio faz-se um rego na frente do sentido das chamas , lança-se o que se designa por um contra fogo contra a frente que se pretende extinguir .Do encontro dos dois resulta, no imediato, apagamento de ambos

3--- A HUMANIZAÇÃO DO MEIO não é o abandono nem as praticas agrícolas exóticas .Tem que ser submetido a um regular cultivo como forma de manter a paisagem e impedir os incêndios Como se vê ,o Alentejo , se votado ao abandono ,é pasto fácil de fogos imensos e incontroláveis . Mas se cultivado normalmente o perigo de incêndios é inexistente . Não é a mesma coisa do que o norte aonde é bem clara a necessidade de um reordenamento florestal com vista a que aquele drama deixe de acontecer Temo porem que um plano de reordenamento florestal , gizado algures , num gabinete sem ligação ao problema ,nos seja imposto sem ter em conta a nossa especificidade regional
Qualquer intervenção nesse sentido , terá que ser de âmbito regional e passa pelo impedimento de plantação da floresta exótica designadamente os eucaliptos .Por outro lado uma intervenção no Alentejo , se bem que seja uma urgência , deverá ser abrangente e integrada no todo agro-rural dado que entre nós não há a floresta extrema ( montados ) mas sim a agro-silvo-pastorícia , que , como o nome indica , inclui a agricultura, o montado e a pecuária . Mas mais . Inclui também o povoamento e ocupação do território e consequente a manutenção deste espaço sob a égide pátrida; a preservação da paisagem e dos seus recursos naturais ; e outras .
Em suma , intervir na floresta é intervir na ruralidade no seu todo . Coisa que no norte , e tendo em conta o que se passa com os actuais incêndios , terá que haver outro tipo de abordagem

Espero ,porem , que essa boa intenção , a estender-se ao Alentejo , não se converta, em mais um sorvedouro de dinheiro como já estamos habituados ; numa agência de emprego do estado , para um certo numero de desvalidos ,os quais dão inicio a um processo de auto-destruição profissional ; numa associação de interesses empresariais , como tantas que por aí há ,as quais , salvo algumas honrosas excepções , constituem-se numa forma de empate ao desenvolvimento e a garantia da manutenção deste incrível bloqueio agrícola ; e em mais uma chatice para os poucos agricultores , tais estóicos abencerragens , que ainda resistem a toda uma erosão anti- rural a que temos estado submetidos.

Desbloqueie-se o acesso á terra de forma a que a ela acedam as novas gerações ; apoiem-se os sistemas agrícolas tradicionais que se articulem com os novos critérios impostos pela globalização ; usem-se , para tornar mais rentáveis e menos penosos os trabalhos agrícolas , os modernos equipamentos e as tecnologias de ponta ; e ver-se-á que , como que por encanto, todos , mas mesmo todos os problemas regionais , inclusivamente os dos incêndios , ficam solucionados .
Francisco Pândega (agricultor )
E-mail –fjnpandega@hotmail.com
Blog--- alentejoagrorural.blogspot.com

31.7.05

Alentejo agrorural
E O VENTO
1---- É demasiadamente grave a nossa dependência energética . Não só pelos enormes preços que o petróleo alcançou mas , muito principalmente , porque estamos á mercê de um produto importado que , a haver alguma perturbação nos transportes ,de que resulte em rotura de abastecimento , a nossa vida transforma-se num pandemónio inimaginável Para aliviar essa dependência , projecta-se a instalação de parques eólicos ,ou seja de grupos de aerodínamos , accionados pelo vento , destinados á conversão da força do vento em energia eléctrica É bom recordar que , já em tempos e utilizando a força do vento , percorremos , de caravela , os mares nunca dantes navegados .Com vento habilmente utilizado ,fomos um povo grande entre os maiores Os tempos ,hoje , são outros . Porque perdemos a garra de então ,amolecidos na dependência do estado ,temos que ser mais contidos nas aspirações concentrando-as naquilo que seja exequível e facilmente alcançável . Aumentar, para o máximo possível , a produção de energia renováveis , constitui , nas actuais circunstancias , um imperativo nacional .O deus Eolo dotou-nos com um tipo de vento perfeitamente aproveitável . .Aproveitamo-lo , pois , já que é uma benesse da natureza que pode aliviar substancialmente , os custos da factura energética e ,com isso , aliviar o mau estar resultante da dependência de terceiros

2---- Outros países, utilizando a força do vento , desenvolveram as respectivas economias . Também nós , dada a bonomia , regularidade e previsibilidade dos nossos ventos ,temos essa possibilidade . Aliás utilizamo-lo abundantemente , nas lides agrícolas , até meados do século passado .
a)-- A Namíbia é um exemplo, bem conseguido , de sucesso , na utilização da energia eólica no accionamento de aéro- bombas .Muito simples e funcionais elevam a agua , das profundezas do deserto, para a superfície , transformando uma região desértica numa grande produtora de gado bovino Como se sabe a Namíbia , ex-colónia alemã do sudoeste africano , situa-se a sul de Angola . A Ocidente tem uma vasta costa atlântica .Essa costa que desde Moçamedes até a cidade do Cabo ,(uns milhares de quilómetros ,) é um dos desertos mais inóspitos do mundo aonde a agua superficial é praticamente inexistente Não tem matas mas somente arbustos rasteiros ; alguns pastos esparsos com uma palatibilidade do tipo salgado ; só areia e muitas rochas desnudadas . Essa aridez física e climática , escassez de agua , esterilidade dos solos , amplitudes térmicas , característica dos desertos , são devidas á corrente fria do Antárctico , que penetra no interior quente , e o transforma a em deserto Tem agua ,nas camadas profundas ,e tem muito vento ( a capital é Windooek –wind +ooek = casa do vento ) .O aparecimento da aerobombas foi providencial .Sendo um instrumento muito simples não deixa de ser funcional , quiçá o único possível , naquelas circunstancias e naquelas épocas .De onde vem essa agua , presente nas camadas mais profundas ? Interrogamo-nos ao atravessar o deserto.A explicação do indígenas é assim :-- No Planalto do Huambo (Angola ) nascem dois grandes rios que partem para sul , paralelamente , na direcção da Namíbia Ali chegados inflectem cada um para seu lado em direcções opostas ,fazendo fronteira :--- O Cunene para o Atlântico e o Okavango para o Indico .Acontece que , não obstante serem dois rios enormes ( fazem parte dos cinquenta maiores rios do mundo ) nenhum chega ao mar perdendo-se nos areais respectivamente da Namíbia e o Kalaari . Perante estes factos não deixa de haver alguma verosimilhança na afirmação de que agua no subsolo destes desertos é devida a esse rios É um exemplo bem eloquente do que ,com base em instrumentos simples e de fabrico caseiro , se pode transformar completamente uma região .No nosso caso importa descer ao mundo da realidade e retirar deste facto as devidas ilações
b)-- O nosso vento é caracterizado por ser muito certinho , regular, sem velocidades excessivas ,bonançoso , muito pontual e previsível .Desde há mais de sessenta anos que não há nenhum ciclone .Não nos podemos queixar ,como outras regiões , de destruições e catástrofes por ele causadas . Como se sabe ,quando o vento é muito forte e carregado de chuva , arrasta terras do que resulta a conhecida erosão ravinosa .Se forte , na terra seca, levanta nuvens de pó , no chão fica a areia e a rocha emergente .È a erosão eólica que empobrece os solos e faz desertos Felizmente o nosso vento não é desses Quem, como nós , anda por esses campos , todo o dia durante anos, sabe que o comportamento do vento se enquadra no seguinte quadro :-- Nos dias de verão temos, pela manhã , uma aragem fresca ,às vezes húmida (brandurada) ;durante o dia o sol aquece o vento não mexe ,dando lugar á nossa tão glosada calma ; de tarde prenda-nos com um ar fresco , bonançoso, vindo do lado nascente ou seja do mar , ao qual nós ,por isso mesmo, designamos por maré .No Inverno , quando do sul , é um vento irregular , gélido e cortante , (suão ) ; ou então se do norte (designado por nortadas ) , geralmente transforma-se em ventania fria, e não raro carregada de chuva, cuja origem , ao que se diz ,é , predominantemente , do Maciço Central da Península Ibérica.Sem aleatoriedades que causam estragos , o nosso vento espera que o transformamos em energia quer mecânica quer eléctrica Com os actuais preços do petróleo não há tempo a perder .
c)-- .Para alem da navegação , também na agricultura , nós utilizamos a força do vento com bastante êxito . Nas eiras , aquando das debulhas , a palha era separada do grão por meio de uma operação denominada espalhagar ,que consistia em lança-la contra o sentido do vento do que resultava a separação da a palha do grão por efeito dos diferentes pesos específicos Outra aplicação era a moenga dos cereais nos moinhos de vento ,os quais , edificados em locais estratégicos ,tinham a função de transformar a força do vento num movimento rotativo de uma mó , sobre outra estática ,por entre as quais o trigo era farinado Estas formas de aproveitamento, quer nas eiras , quer nos moinhos ,pertencem ao passado. Terão que dar lugar ás modernas aerobombas e aos aerodinamos .. Não estou a referir-me ao aproveitamento da energia eólica , em grande escala Isso transcende o âmbito deste escrito . Estou a falar do uso da energia eólica ,nas explorações agrícolas dispersas , que precisam de autonomia enérgica para pequenos usos :--- elevação de agua para uma horta familiar , gastos de casa ,animais domésticos ,baixa tensão para a iluminação , aparelhos de comunicação ,pequenos equipamentos , etc . O facto de estar uma curso a instalação dos canais de regadio de Alqueva, não retira minimamente a valia da energia eólica na dimensão que propomos . São equipamentos de diferentes dimensões para diferentes fins .A rega a partir de Alqueva destina-se a grandes regadios agrícolas os quais, logo que a cultura deixe de precisar de água , fecham-se as adufas até para o ano seguinte .

3---- Nem só com grandes empreendimentos se desenvolve a região .Pequenos ,simples ,funcionais, enquadráveis nos sistemas agro-sociais locais , são indispensáveis para o bom desempenhos da economia agro-rural O aproveitamento do vento ,porque perfeitamente ao nosso alcance é um deles .Discutindo ,com um amigo , o conteúdo deste escrito, antes de do seu lançamento, dizia-me ele:-- É absolutamente funcional para o fim proposto. Contudo quem são os destinatários ?- A pouca população que ainda resta nos campos alentejanos está acantonada nas aldeias . Os montes ,os destinatários naturais , são , na sua quase totalidade , pertença de estranhos ao meio e residentes algures , que tem uma noção egoísta e inconsequente do mundo rural .Daí que a sua disseminação tenha de ser antecedida de uma reestruturação fundiária que atribua á terra uma função social .Os equipamentos eólicos só irão pontilhar a paisagem alentejana quando os actuais “legítimos direitos “ sobre a terra ,forem substituídos pelo conceito de ruralidade FRANCISCO PÂNDEGA (agricultor)E mail:- fjnpandega@hotmail.comBlog—alentejoagrorural.blogspot.com

5.7.05

Alentejo agrorural

E A
ATRACÇÃO DE INVESTIMENTOS

1----Ignorando as colossais potencialidades da nossa região, faz-se tudo para captar capitais estrangeiros para a instalação de fábricas Indo-se ao ponto de clamar, dirigindo-se aos detentores de capitais, – “venham, tomem isto e dêem-nos um emprego! --.” O que nem sempre significa trabalho. Mesmo perante as deslocalizações para outros paraísos laborais, é nesse tema que se insiste, persistindo-se na cegueira de não olhar para a nossa vasta e riquíssima região aonde todos os sonhos sócio-económicos são possíveis Esta atitude deriva de uma já velha perversão, que consiste em defender, a todo o transe, quem trabalha por conta de outrem, dificultando a vida a quem persiste no trabalho por conta própria. Ora, sabendo-se que está no fomento de pequenas empresas , alfobre de auto-emprego e de trabalho persistente , de onde costumam nascer os grandes empresários , ,não se compreende que tudo , em nós , seja contra a sua instalação e sobrevivência Trabalhar por conta de outrem, seja de quem for e qual for o ramo, jamais pode resultar num estatuto social ou nível de vida superior ao seu homólogo que trabalhe por conta própria. Esta circunstância, instalada entre nós, constitui uma gravíssima inversão de valores que importa corrigir. A deslocalização de empresas é o primeiro sinal de algo vai ser inexoravelmente alterado em termos laborais; a necessidade do cumprimento das regras do PEC contem uma clara ameaça à dimensão e regalias da função pública; a presença de entidades estrangeiras, no ramo privado, com uma outra atitude perante a vida, é um claro indicador de que nós estamos errados. Mas mais:-- Se não ousarmos fazer as alterações de moto-próprio fá-las-emos de forma compulsiva. A solução , para o desenvolvimento , passa pelo auto-emprego e jamais (estou-me a referir à agricultura) pelas grandes sociedades agrícolas ou unidades colectivas de produção as quais , absolutamente iguais nos seus propósitos e na inadequação ao nosso meio. São responsáveis por muitos dos nossos danos .

2----- Industrializar o Alentejo? Evidentemente que sim!..Mas fazê-lo com base nos recursos naturais existentes e nas produções para as qual haja vocação ecológica. È assim: --- As indústrias, de mão-de-obra intensiva estão –se ,umas atrás das outras a mudar de local As que ficam arriscam a sus sobrevivência por incapacidade de sobreviver em concorrência; as grandes industrias de alta tecnologia, porque escudadas por uma certa abrangência comercial universal, estão fora do nosso âmbito ; e as outras que laboram com base na matéria-prima regional, essas sim, estão perfeitamente ao nosso alcance devendo ser sobre elas que envidaremos os nossos esforçosContudo ,isto, bloqueado como está , não pode continuar. Inseridos como estamos numa comunidade global de alta competição , é preferível que sejamos nós, por nosso livre arbítrio a proceder ás alterações do que faze-lo a soldo de estrangeiros Sem sonhos utópicos, vejamos o que está claramente ao nosso alcance:-- a extracção dos recursos naturais ,o sector turístico e as agro-indústrias alimentar .

a)--- Recursos naturais . Afinal não somos tão pobres como certos interesses nos pretendem fazer crer O que acontece é que claudicamos perante interesses exógenos , impossibilitando a sus conversão em riqueza e em bem estar social . Sem utopia , conhecendo , como muitos de nós conhecem , a enorme capacidade produtiva e tendo em conta a nova ordem comercial global ,qualquer programa de fomento industrial passa dos recursos naturais, designadamente :
---A existência de mármores , granitos , pirites ,etc., são recursos existentes na nossa região ,dos quais se pode esperar muito , em termos financeiros
---A costa marítima , que geralmente não se menciona , é uma valia económica não despicienda na função portuária , turística, piscatória e outras , que tornam o Alentejo uma invejável potencia regional Com acessibilidades constituir-se-ia na trave mestra do desenvolvimento do Alentejo e da Extremadura
----A cortiça , que incluímos neste capítulo , é um recurso florestal que tem contribuído , em termos financeiros , no último decénio , com verbas superiores (em bruto ) a cem milhões de contos anuais . É muito dinheiro .Tanto que ,só por si e se aqui aplicado , teria transformado o Alentejo , em termos de prosperidade, alcandorando-o da região mais pobre da Europa , para um das mais prosperas

b)--- Turismo . Sem duvida que o Alentejo tem vocação para ser uma boa região turística , em múltiplas vertentes .
---Paisagística A paisagem orográfica e florestal ; o regolfo de Alqueva ; os sistemas agrícolas e seus cultivares ; o clima ameno estável e sem aleatoriedades .Isto num Europa continental tão diferente , convida ao turismo paisagístico senão mesmo à residência da terceira idade que um Alentejo solarengo propicia
--- Histórica . Como toda e qualquer outra região , também neste aspecto temos uma aliciante oferta .Tudo na nossa região é historia Desde a abundante monumentalidade , o testemunho edificado da nossa história , até aos lugares de grandes feitos aos se ficou a dever a nossa soberania . Afinal , não obstante estarmos a passar por um mau momento , somos um povo adulto com um passado que enobrece .Não estamos mortos .
-- Gastronómico .Numa época em que está instalado ,por toda a parte , um certo terror alimentar , se conseguirmos aliar a garantia qualidade ,em termos de ausência de agro-químicos , aos sabores da nossa excelente cozinha , há , neste domínio , uma certo espaço turístico que imposta explorar .

c)--- As agro-indústrias alimentares .Sem subvalorizar os sectores atrás descritos , a autêntica solução ,para a região alentejana , reside na agro-indústria alimentar com base nos produtos agrícolas para os quais temos vocação ecológica ,. Será a partir deles , porque naturalmente de boa qualidade e produzidos a baixos custos ,que deverá assentar o fomento da nossa economia certo de que não há deslocalizações ,certos da sua auto-sustentabilidade . Acresce o facto de , dessa adequação , resultará uma total integração laboral ,ambiental , social . Estou ,como já se deve ter percebido , a falar da carne de porco , do vinho , azeite , horto -frutícolas e pouco mais. Concentrar a produção e a oferta em pouco mas bons produtos , aonde somos imbatíveis ; proceder a uma agressiva divulgação pelos modernos métodos ; toda a nossa produção , assim concentrada , pode ser suficiente para conquistar e manter o nosso próprio nicho de mercado globalizado ou alargado Claro que , sendo estas as culturas base , outras , muitas outras , se terão que efectuar não só como complementares ,das atrás referidas , como para auto-abastecimento regional É esta a verdade económica da nossa região , é este o nosso desígnio agro-social , é este o sistema que se coaduna com a nossa maneira de ser como se fizesse parte integrante do nosso código genético

3--- Este modelo económico implica alterações agro-sociais , no nosso tecido rural , já que importa privilegiar a agricultura do tipo familiar , em explorações de dimensões humanizadas , cujas vantagens são inumeráveis Ele irá facilitar um desenvolvimento exponencial do resultará , numa única geração , a possibilidade de povoar o Alentejo ,nos seus trinta mil quilómetros quadrados , com trinta mil famílias residentes em explorações funcionais ,acrescido de um igual numero de pessoas adjuvantes , o que constitui cerca de 250.000 pessoas directamente adstritas à agricultura . Numa sociedade moderna e equilibrada o número de pessoas directamente ligadas à terra não deve exceder dez por cento da população total Sendo assim , a população do Alentejo seria , tal como a nossa homologa Extremadura , de dois e meio milhões de habitantes .Seria esse o Alentejo de hoje se não tivesses sido vendido , em Lisboa , pela eufemisticamente denominada “venda de bens nacionais” ,do que resultou uma autêntica ocupação por estranhos ,até aos nossos dias , da qual, até hoje, nos não conseguimos libertar Francisco Pândega (agricultor)www.fpandega@iol.pt blog--- www.alentejoagrorural.blogspot.com

5.6.05

Alentejo agro-rural (V)
E OS
SINAIS DA FRANÇA

1— OS FRANCESES E HOLANDESES referendaram e rejeitaram a constituição europeia. Quanto a mim não foi a constituição que foi chumbada. Fosse ela qual fosse teria tido o mesmo destino. Já que ela, se bem que excessiva e maçuda, pouco mais vai alem do reorganizar as directivas em vigor Creio que o desencanto reside no facto de se ter desviado dos critérios fundacionais, ou seja a Europa da regiões ou povos O não ter percebido que há diferentes regiões naturais que moldam os seus próprios povos; gentes que se encontram em diferentes estádios evolutivos, com diferentes ambições, e formas de estar e ser, está a afectar o funcionamento da União.
As comunidades regionais e os seus problemas específicos, só podem ser entendidos e resolvidos a nível regional e com a participação activa dos seus autóctones. Trata-los, todos, como que se de uma amálgama de pessoas se tratasse, medi-las , todas , pela mesma rasoura, é não perceber que as condições de cada região natural geram diferentes especificidades vivenciais nas suas gentes

2----O “NÃO, foi devido a questões gerais, que atravessam toda a comunidade, designadamente a política de imigração para colmatar a perda de vitalidade e a deslocalização das indústrias resultante da globalização. Outras há, que, no nosso caso, seria a ineficácia da PAC – Analisamo-las, um pouco mais detidamente, sob o ponto de vista alentejano

a) -------Na actual situação nem nós, nem qualquer outro país dos quinze, estamos em condições de prescindir da imigração A nossa população, envelhecida, confortada sobre os direitos adquiridos, tem tudo garantido. Menos a capacidade de trabalhar e de se reproduzir. Daí que sinta ameaçada a sustentabilidade dessas garantias e o rejuvenescimento do tecido demográfico. Não obstante, o que é contraditório, continua numa luta insana pela liberalização do aborto, em vez de aplicar esse mesmo esforço, no sentido de lhes serem concedidas condições dignas para procriar. Aliás, estamos a falar de, para alem do pagamento de uma dívida aos respectivos progenitores, um dos desígnios da natureza

b)------Também as questões laborais estiveram na origem de muitos “nãos”. Há, hoje, um pavor, pelo facto das indústrias se estarem deslocalizar para outros países, considerados paraísos laborais, aonde os custos de produção são mais baixos e as relações menos quezilentas.
Não merece a pena lutar contra a natureza das coisas As mudanças são inevitáveis e os operários terão de procurar outra ocupação quer as empresas vão quer fiquem Pois se ficarem espera-as falência por perda de competitividade. Nessas condições, melhor será que vão pelo menos mandam para cá os produtos mais baratos
Nós ,como alternativa , temos a sorte de termos um vastíssimo território aonde a capacidade de ocupação na agricultura é ilimitada e as sinergias dela resultantes são incomensuráveis Mas é preciso alguma luta para desbloquear o meio rural, agora cada vez mais difícil devido a sua alienação para estrangeiros
As indústrias que laborarem matéria-prima regional, essas vão continuar entre nós. Estou a falar das agro -industrias alimentares, as extractivas, as relacionadas com o mar e, por fim, as turísticas .
É loucura sonhar com Sillicon’s Valley’s, quando temos aqui, mesmo à mão, algo mais precioso:--espaço Mas isso implica luta .Na situação acomodatícia em que nos encontramos , tantas vezes a rondar a cobardia , lutar por causas comuns , não arregimenta .Mas essa terá que ser empreendida e ganha por nós . Não tem nada que ver com a constituição Europeia

c)------A PAC (politica agrícola comum ),que, noutros países , potenciou o desenvolvimento rural , entre nós , tal não aconteceu .Se bem que , por sua via , tenham vindo , para a agricultura da região , quantias enormes ,elas não se traduziram nem em mais produção , nem alterações desta enquistada estrutura fundiária , na fixação de pessoas , no bem-estar rural , nem com dinheiro para o erário público . Talvez , isso sim , tenha alimentado as indústrias do ócio , prazer e diversão ,libertinagem .
. O que se vê nos nossos campos , sendo o resultado dos subsídios , destina-se a captar mais subsídios . Pouco ,muito pouco é de natureza auto sustentável . Ficamos pior do que estávamos .Perdeu-se tempo, a comunidade rural perdeu qualidade . Agora , antes que os subsídios acabem , transfere-se a terra para estrangeiros ficando a comunidade rural autóctone, definitivamente arredada da usufruição do seu espaço O que , sendo profundamente injusto , é muito perigoso para a nossa soberania
Os critérios das PAC eram muito selectivos quer no que se refere ao tipo de agricultor quer aos quantitativos individuais a subsidiar . Daí que , para obviar esse inconveniente , fosse permitido que se constituíssem cerca de dez mil sociedades agrícolas ; se alterassem as regras afim de que pudessem ser candidatados um número ilimitado de hectares ou cabeças de gado ; assim como permitir a candidatura aos pseudo –agricultores .Perdeu-se, desta forma , o sentido estruturante dos fundos para se tornarem num suporte à manutenção desta inqualificável estrutura fundiária
Como se sabe este processo teve início em 1985 .A sua aprovação e dotação financeira , tinha ,e tem , por base QCA (quadros comunitários de apoio ), com uma de vigência de sete anos ,: Só mais tarde , nos finais da década noventa ,Capoulas Santos , então ministro da agricultura , apercebendo-se da ineficiência do programa , tenha tentado introduzir critérios de plafonamento afim de contrariar este desastre monumental . Esbarrou com QCA, monolítico e inamovível e com uma multiplicidade de direitos adquiridos .Estava tudo acautelado
. Assim , de asneira em asneira, foi agonizando até ao ano passado que finalizou com esse erro monumental que foi o RPU (regime de pagamento único ) que , na prática , significa :-- pagar subsídios , agora sem a obrigatoriedade de produzir , com base em supostas produções , também elas já subsidiadas , mas que não existiram ,entre os anos 2000/2002 . A opção pelo RPU tinha dois anos para ser tomada :Não se percebe bem qual a pressa
È uma questão directamente ligada à União Mas será que , quer o tratado de Nice quer a nova constituição, tenham alguma culpa deste desastre ? Obviamente que não .

3 --- Pode-se concluir que União não está a conviver bem com a nova ordem comercial global Sem poder dispensar a imigração , teme pelo facto desta não se integrar e dissolver na sociedade de acolhimento Pode acontecer-lhe , como diz a metáfora que ,” a certa altura da ladeira , não se sabe bem se são os bois que puxam a carroça se é esta que empurra os bois.”---. A história é fértil no relato de povos que amoleceram ,não cuidaram da auto-defesa , sendo depois constrangidos ,a fazerem o que não gostam , a mando de outros . Isto é um aviso ,também para nós , alentejanos.
Pelo exposto ,já se percebe que preferiria que a nova constituição da União fosse mais leve e privilegiasse principalmente a manutenção do euro ,a representação internacional e a defesa comum , por um lado , e , por outro , desse ênfase a um comité das regiões ,elegendo-o como autêntico representante do sector socio-económico a nível das regiões naturais individualizadas .
Quanto aos temores que afligem os cidadãos comunitários, ,tais como o desemprego ,a deslocalização de empresas ou a invasão de produtos orientais ,não vejo que esta constituição , agora rejeitada ,não fosse um instrumento eficaz para a enfrentar
Francisco Pândega (agricultor )
fjnpandega@hotmail.com
alentejoagrorural.blogpot.com

4.6.05

Alentejo agro-rural ( V)

ALQUEVA ---semear o quê para vender a quem?

1--- As condicionantes do regadio A globalização; os novos critérios nos apoios comunitários; o perigo para a saúde pública com origem nos alimentos; a necessidade de povoar e, consequentemente, exercer a soberania do território; as preocupações ambientais; entre outras; obrigam a uma revisão dos conceitos de produção agrícola, seja ela de sequeiro seja de regadio . Obriga a que, sempre que se tomem decisões , neste domínio, se faça esta pergunta: -- semear o quê para vender a quem ?
a) --- Sem preocupações com a qualidade, produzir, hoje, é facílimo. Podem ser produzidas plantas num caixote de areia inerte, que funciona como suporte. Depois é juntar agua e micro nutrientes, administrados especialmente pela via foliar, e acompanhar com pesticidas. Podem ser criados animais enjaulados, privando-os da sua condição animal, para tanto basta dar-se agua e alimentos concentrados, vitaminas, antibióticos e anabolizantes.
Em ambos os casos o resultado é invariavelmente: --- produtos alimentares descaracterizados, senão mesmo decepcionantes , em termos de palatibilidade e, quiçá, perigosos para a saúde de quem os ingere b) – Sem preocupações ambientais, podem-se produzir grandes quantidades de produtos agro-alimentares desde que não se tenha em conta a preservação dos montados, a defesa dos solos contra a erosão, o seu empobrecimento pela via da exaustão; a conspurcação das águas, quer subterrâneas quer superficiais, como acontece nos locais aonde se procede a uma agricultura ou pecuária super intensiva Entre nós já se verificam agressões ambientais A maior das quais , foi a resultante das campanhas cerealíferas, no final dos anos vinte, cujos danos ambientais foram muito gravosos . De tal maneira que ,ainda hoje ,são bem visíveis na desflorestação, pobreza dos solos e falta de água, com especial incidência, a sul do Baixo Alentejo.
c)-- Sem preocupações com os custos de produção, o que acontece sempre que haja um certo tipo de subsidiação ou que os mercados sejam condicionados . Neste mundo globalizado, em que diariamente nos entram , pelas portas dentro , produtos oriundos de aonde hajam condições ecológicas favoráveis , obrigam-nos a fazer uma revisão da nossa estratégia , em termos de programação agrícola .

2---Instalação do regadio .Quer tenha origem na água da barragem de Alqueva ,seja proveniente de outras captações , também ele está absolutamente condicionado por aqueles três factores ( qualidade , ambiente e custos ) . Porque indissociáveis , entre si, terão que ser tratados em conjunto .A saber :---
a)---Se se fizer regadio , mais do que um ano seguido na mesma área , de certeza que se dá uma invasão de infestantes que dificultam o desenvolvimento da cultura. São os junquilhos ,as beldroegas, escalracho,corriola, lírios , milhâ e tantos e outros , que , de ano para , aparecem cada vez mais bastas . São as pragas constituídas por afídios ,lagartas, ralos, nemátodos , etc , que devoram uma cultura num ápice ; são os míldios ,os oídios, as viroses , bolores, podridões , etc. que reduzem as plantas a algo tisnado e irreconhecível ,.Mesmo que no regadio se proceda á rotação de culturas , muitas destas pragas são comuns ás diversas plantas
O combate pode ser feito pela aplicação de pesticidas ,que o mesmo será dizer , a continuação do que presentemente se faz ,ou então proceder ao uso dos pousios ,perfeitamente possíveis entre nós
Sendo assim , integrando o regadio num sistema de afolhamentos e ,neste, numa criteriosa rotação de culturas , resulta na aplicação mínima de fertilizantes de síntese assim como na dispensa de pesticidas
Ou seja :-- de um regadio, intercalado por pousios , resulta na eliminação das ervas daninhas , por falta de mobilização do solo ; na eliminação das pragas e doenças por falta de hospedeiro compatível ; e restaura a fertilidade já que ,com a lavoura ,é sempre trazido , para a superfície, algum subsolo o qual desencadeia um processo químico que favorece a fertilidade

c)—Cultivar o quê ? É o que falta responder . O mercado das horto-frutícolas é muito inconstante em termos de preços ; o facto de serem produtos muito perecíveis ,não dão para guardar ; requer muita mão de obra que nem sempre existe ; conhecimentos e predisposição do agricultor o que nem sempre acontece .Daí que defendamos que regadio , destinado a manutenção e acabamento da pecuária na exploração , irá funcionar como âncora , retorno ou salvaguarda , sempre que determinadas culturas deixem de ser viáveis
Uma exploração que tenha determinada área de sequeiro e regadio assente no sistema designado por agro-silvo-pastorícia ,o objecto do regadio se devera ser, basicamente, para a manutenção e acabamento do gado .Assim :---
----- Beterraba forrageira , que teve uma certa importância nos meados do século passado, como alimento para bovinos leiteiros , deu hoje lugar a grandes áreas de beterraba sacarina . È muito possível que esta cultura venha a ser afectada pela concorrência da cana sacarina Regada por fitas gotejadoras conseguem-se produções enormes Trata-se de uma excelente alimento para a manutenção e engorda de bovinos de carne
---- Sorgo com regas amiúde , resultam grandes produções de matéria verde . Irrigável por sistemas de aspersão ,e pastoreada directamente ,é uma forragem muito rentável para ovinos Especialmente para borregos á desmama resultam desmamas de alto rendimento
----- Abóboras porqueiras. Uma cucurbitácea muito rústica ,tradicionalmente cultivada de sequeiro . Porem ,se de regadio , por meio de tubos gotejadores , conseguem-se produções de alguns dezenas de toneladas por hectare . Excelente para a engorda de porcos, no verão, .Com a vantagem de diminuir a periodicidade das desparasitações já que as pevides são anti-helmíticos eficazes

3--- A versatilidade do sistema A experiência já mostrou que nestas questões da economia agrária não se pode ficar á mercê das flutuações do mercado nem dos caprichos de ninguém Daí que o regadio deva ser projectado com alguma abertura e elasticidade de forma a permitir alternativas. Ou seja haver , espaço para outras iniciativas agrícolas mas mantendo aberta a retaguarda e , com ela, a possibilidade de regresso ao sistema base sempre que essas oportunidades se esvaziem
Fica-se sempre em condições de fazer contratos de horto-frutícolas, com destino ao mercado da Europa Central , já que entre nós a época hortícola ,se antecipa cerca de dois meses em relação a eles ; um contrato com uma fabrica de tomate ou pimento ,mas logo que cesse o interesse por esse negócio ,se possa regressar ao sistema base .
Não acredito na viabilidade do cultivo de milho destinado ao etanol .Os países aonde chove no verão estão melhor posicionados para o seu cultivo . Mas pode acontecer , dada a corrida ao milho geneticamente modificado , a nossa região ,não obstante não boa produtora de milho , possa vir a constituir um reduto de salvaguarda da preservação genética desta espécie .Nessa altura já pode ser viável e, então possamos destacar uma parcela, do regadio /forragem , para esse efeito.
Francisco Pândega (agricultor )
E-mail:---fjnpandega@hotmail.com;
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